Tratamento Inicial

Tratamento com iodo radioativo

Mesmo numa cirurgia bem-sucedida, é natural que o cirurgião não remova por completo todo o tecido da tiróide.

Isto acontece porque o cirurgião tem de ter cuidado para não danificar estruturas adjacentes, como o nervo das cordas vocais e as glândulas paratiroideias. Dado que a tiróide é o único tecido no corpo humano capaz de absorver e armazenar iodo, utiliza-se um procedimento denominado ablação (terapêutica ablativa por iodo radioativo) para identificar e destruir qualquer célula remanescente da tiróide. Este procedimento envolve a administração de iodo radioativo, que destrói as células tiroideias remanescentes. Esta é uma opção terapêutica para grande parte dos doentes com carcinoma da tiróide dos tipos papilar ou folicular. 

O iodo radioativo pode ser administrado sob a forma líquida ou por comprimidos e a ingestão de líquidos ajuda a que o iodo se distribua mais rapidamente pelo corpo. Poderá ser necessário internamento até 3 dias na ala de isolamento. É importante o aconselhamento com o médico, no sentido de encontrar formas de limitar a exposição de radiação a outras pessoas, nomeadamente a crianças que poderão estar por perto.

É importante conversar com o médico sobre possíveis efeitos secundários da terapêutica com iodo radioativo, de forma a gerir expectativas. No primeiro dia de tratamento poderá sentir náuseas e vómitos e, ocasionalmente, dor e inchaço nas zonas onde o iodo radioativo tipicamente se acumula, como as glândulas salivares – o que pode causar sensação de boca seca e alterações no sabor.

Doses elevadas ou cumulativas de radiação poderão conduzir a infertilidade, especialmente em homens, tendo sido reportadas contagens de espermatozóides baixas durante aproximadamente dois anos. É recomendado que mulheres evitem a gravidez durante pelo menos um ano após o tratamento com iodo radioativo, devendo também evitar amamentar. Há um risco aumentado de carcinomas secundários quando se é submetido a ciclos repetitivos de iodo radioativo (saiba mais sobre monitorização a longo prazo).5

 

Aumento dos níveis de Hormona Estimulante da Tiróide (TSH, Thyroid Stimulating Hormone) na preparação para a ablação

Para que a ablação seja um sucesso, as células da tiróide precisam de ser capazes de absorver grandes quantidades de iodo. Para aumentar esta sua capacidade de absorção, poderá ser necessário fazer uma restrição da ingestão de iodo na dieta, nas semanas anteriores à ablação. As células da tiróide, cancerígenas ou saudáveis, podem ser estimuladas a absorver iodo, através de níveis elevados da hormona estimulante da tiróide (TSH).

Assim sendo, o médico irá querer aumentar os níveis de TSH, quer através da administração de injeções de TSH produzida por bioengenharia (hormona recombinante TSH: rhTSH, recombinant human TSH), quer interrompendo temporariamente a toma dos comprimidos de hormona tiroideia. Ao parar de tomar os comprimidos de hormona tiroideia, é provável que sinta efeitos secundários, devidos aos baixos níveis de hormona tiroideia no corpo – hipotiroidismo.4 Os efeitos secundários da rhTSH reportados mais frequentemente são náuseas (12%) e dores de cabeça (7%).6 

 

Privação de hormona tiroideia

Se for acordado com o médico a interrupção da toma dos comprimidos de hormona tiroideia, de modo a aumentar o nível sanguíneo de TSH, esta pausa deverá ter início duas a seis semanas antes da ablação (é necessário um nível mínimo de TSH para que a ablação seja bem sucedida).2

Durante este período, é provável sentir-se desanimado e cansado, pode sofrer de episódios de fadiga ou ter dificuldade em concentrar-se. Algumas pessoas debatem-se ainda com depressão ou perda de memória. Poderá sentir necessidade de uma folga do trabalho durante esta fase do tratamento.4,7

Efeitos secundários comuns do hipotiroidismo

Injeções de rhTSH

Este tratamento resulta num rápido aumento a curto-prazo dos níveis de TSH. Para tal, é administrada uma injeção intramuscular nos dois dias anteriores à ablação e não há interrupção da toma dos comprimidos de hormona tiroideia. Desta forma são evitados os efeitos secundários devidos à pausa na toma dos comprimidos de hormona tiroideia e o tempo entre a cirurgia e a ablação pode ser encurtado em 10-14 dias.2 Os efeitos secundários da rhTSH reportados com mais frequência são náuseas (12%) e dores de cabeça (7%).6

Graças a opções de tratamento avançadas, os sintomas de hipotiroidismo resultante da cirurgia ou durante o período de seguimento são menores. Para além disso, os tempos de tratamento com iodo radioativo podem ser reduzidos ao mínimo; o primeiro ciclo da terapêutica com iodo radioativo pode ser completado apenas 14 dias após a cirurgia.2

 

Tratamento do Carcinoma da Tiróide e o risco de hipotiroidismo

Tratamento do carcinoma da tiróide

O carcinoma da tiróide é o tipo de cancro endócrino mais frequente. Existem quatro tipos principais de carcinoma da tiróide: papilar, folicular, medular e anaplásico. Os carcinomas papilar e folicular (usualmente denominados “carcinomas bem diferenciados da tiróide”) são os tipos mais comuns, representando cerca de 90% do total de carcinomas da tiróide. 

Na maioria dos casos, os doentes são tratados através da remoção cirúrgica da tiróide – tiroidectomia. 

Após a tiroidectomia, o corpo deixa de ser capaz de produzir hormonas tiroideias, responsáveis por regular muitas funções no corpo, como o metabolismo e a utilização de cálcio. Após a cirurgia, os doentes são tipicamente tratados com terapêutica de substituição de hormona tiroideia, de forma a ajudar o corpo a manter níveis apropriados de hormonas da tiróide. 

 

O risco de hipotiroidismo

Quem foi submetido a remoção total ou quase total da tiróide pode por vezes necessitar de tratamento com iodo radioativo, um tratamento conhecido como ablação, em que são destruídas quaisquer células remanescentes da tiróide no corpo. Para proceder à ablação, os médicos necessitam de estimular o tecido tiroideu remanescente, restringindo as hormonas tiroideias. Em muitos doentes, a interrupção da terapêutica de substituição de hormona tiroideia pode resultar em hipotiroidismo, um estado decorrente de níveis reduzidos de hormonas tiroideias. 

Para além da ablação, os doentes devem ser monitorizados, de forma a identificar eventuais recidivas. Durante o processo de monitorização, os doentes podem ter de interromper a terapêutica de substituição de hormona tiroideia, o que pode também conduzir a hipotiroidismo. 

 

Os sintomas de hipotiroidismo incluem
  • Fadiga
  • Dificuldade em concentrar-se
  • Intolerância ao frio
  • Aumento de peso
  • Distúrbios do sono
  • Pele seca
  • Obstipação
  • Movimentos lentos

 

Efeitos do hipotiroidismo 

O hipotiroidismo grave pode levar a um leque abrangente de morbilidades, de natureza cardiovascular, cerebrovascular ou lipídica. Pode também reduzir ou alterar a atividade cerebral, a eficiência cardíaca e a frequência cardíaca. Os doentes com hipotiroidismo podem ter um estado mental diminuído e ficar deprimidos, ansiosos ou letárgicos. 

Um estudo recente concluiu que o hipotiroidismo grave pode afetar as capacidades cognitivas e motoras, bem como comprometer a capacidade de realizar atividades complexas que envolvam respostas rápidas, como conduzir.

 



1. Hay ID, Klee GG. Thyroid cancer diagnosis and management. Clin Lab Med.1993;13:725–734.
2. Perros P, Colley S, Boelaert K, et al. British Thyroid Association Guidelines for the Management of Thyroid Cancer. Clinical Endocrinology 2014; 81(Suppl.1):1–122.
3. Levothyroxine sodium patient leaflet. Electronic Medicines Compendium. Available from: http://www.nhs.uk/medicine-guides. Accessed December 2014.
4. Dow KH, Ferrell BR, Anello C. Quality-of-Life Changes in Patients with Thyroid Cancer After Withdrawal of Thyroid Hormone Therapy. Thyroid 1997;7:613-619.
5. Khang, et al. The risk of second primary malignancy is increased in differentiated thyroid cancer patients with a cumulative 131I dose over 37 GBq. Clinical Endocrinology 2014. doi: 10.1111/cen.12581. [Epub ahead of print].
6. Thyrogen Summary of Product Characteristics. Genzyme.
7. Banach R, Bartès B, Farnell K, et al. Results of the Thyroid Cancer Alliance international patient/survivor survey: Psychosocial/ informational support needs, treatment side effects and international differences in care. Hormones (Athens). 2013;12:428–438.
8. Pacini F, Schlumberger M, Dralle H, et al. European consensus for the management of patients with differentiated thyroid carcinoma of the follicular epithelium. European Journal of Endocrinology 2006;154:787-803.